Entidades políticas e parlamentares criticaram uma fala do presidente da Câmara de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira (MDB), durante sessão dessa quarta-feira (17). O vereador utilizou a expressão “leitear” ao se referir à prefeita Flávia Moretti (PL).
O termo utilizado por Serqueira não consta em dicionários formais da língua portuguesa, mas foi interpretado como uma referência a “ordenhar”, ao se referir ao líder da prefeita na Câmara, vereador Bruno Rios (PL). A expressão gerou críticas por ser considerada inadequada no contexto em que foi usada.
A declaração ocorreu durante uma discussão iniciada após manifestação de Bruno Rios na tribuna. Na ocasião, ele pediu ao presidente da Câmara e aos demais parlamentares a inclusão, em regime de urgência, do Projeto de Lei nº 88/2026, que prevê a abertura de crédito adicional de R$ 6,9 milhões para a Saúde. Rios afirmou que já havia feito o pedido anteriormente, sem ser atendido.
“Não estamos falando apenas de crédito adicional, mas de saúde, de medicamentos, de estrutura e de recursos. A maioria dos colegas não tem dificuldade em votar o projeto. Peço que o PL 88 seja incluído”, afirmou Bruno Rios.
Em resposta, o presidente da Câmara disse que não havia resistência à matéria, mas apontou problemas técnicos no texto. “Vossa excelência está passando do limite. Ninguém aqui é contra o projeto, tanto que no ano passado houve um incremento de R$ 200 milhões no orçamento. Mas o projeto precisa estar correto. Solicitei ajustes antes de colocá-lo em votação”, disse.
Na sequência, Cerqueira reagiu ao posicionamento do vereador e utilizou a expressão que gerou repercussão. “Não venha usar a tribuna como palanque. O projeto tem erros. Quer ‘leitear’ a prefeita? Faça isso de outra forma”, completou.
Repúdio
A Associação Mato-grossense dos Municípios (AMM) também se manifestou e afirmou que a fala desrespeita a prefeita Flávia Moretti ao utilizar “linguajar pejorativo e ofensivo”. Em nota, a entidade classificou como “lamentável” a postura do presidente da Câmara.
“A AMM considera inadequada a conduta do presidente, que, em vez de contribuir para o avanço do município e para a construção de soluções em benefício da população, adotou uma postura incompatível com o decoro parlamentar e prejudicial à imagem do Legislativo”, diz o posicionamento.
Já a Associação Brasileira de Mulheres da Carreira Jurídica (ABMCJ-MT), por meio da presidente Tânia Regina de Matos, avaliou que o episódio vai além de um excesso verbal e pode ser enquadrado como violência política de gênero.
“A conduta relatada não se limita a uma fala inadequada. Ela se aproxima da violência política contra a mulher, ao dificultar, constranger ou deslegitimar o exercício do mandato por mulheres em posições de liderança”, afirmou.
A entidade também destacou que a expressão utilizada tem caráter depreciativo e desvia o debate do campo institucional.
“Não se trata de crítica política, mas de desqualificação. É inadmissível que, em um ambiente legislativo — que deve ser pautado pelo respeito e pelo diálogo democrático — sejam naturalizadas falas que reforçam estigmas e atingem diretamente mulheres em posições de poder”, acrescentou.
A senadora Margareth Buzetti (PP) também saiu em defesa da prefeita e classificou o episódio como um ataque machista.
“Estou chocada com o nível a que chegou o debate na Câmara de Várzea Grande. Trata-se de um ataque machista contra uma mulher que sequer estava presente para se defender. É preciso respeito no debate público”, afirmou a parlamentar.
O que diz o vereador
Após a repercussão da fala, a assessoria de Cerqueira emitiu nota alegando que não fez comentários ofensivos contra a gestora e citou que o termo “leitear” faria alusão ao ato de pressionar, para que o vereador entrasse em contato com a própria prefeita para que seu projeto fosse aprovado.
“O presidente da Câmara Municipal de Várzea Grande, Wanderley Cerqueira, vem esclarecer que em nenhum momento fez comentários pejorativos a prefeita Flávia Moretti durante discussão sobre projetos de lei com o vereador Bruno Rios.
Ele destaca que ao ser questionado sobre a inclusão de um projeto de lei na ordem do dia, afirmou que o vereador Bruno Rios poderia ‘leitear’ a prefeita, referindo-se ao ato de insistir ou pressionar alguém para conseguir algo. Nesse contexto, ‘leitear’ significa buscar insistir ou pressionar a prefeita para que o projeto seja aprovado, e não teve qualquer ofensa ou direcionamento a algo negativo.
O presidente reafirma seu respeito à prefeita Flávia Moretti e ao trabalho realizado pela administração municipal”, disse.
O que diz a prefeita
A reportagem do Primeira Página entrou em contato com a assessoria da prefeita Flávia Moretti (PL), no entanto não obteve retorno.
O PP também tentou contato com a assessoria da deputada estadual Janaina Riva, presidente do MDB, partido de Wanderley Cerqueira, contudo, não obteve resposta. Espaço segue aberto para manifestações.
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